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O Futuro do mundo do Vinho

Ele não é dado a meias palavras e não deixa perguntas sem respostas. Doa a quem doer: O mais renomado flying winemaker do mundo – enólogo que dá consultoria a várias vinícolas em diferentes países – o francês Michel Rolland esteve, no dia 4 de julho, em Bento Gonçalves, para o lançamento dos vinhos da Miolo Wine Group – que integra, entre outras, a Lovara e a RAR (de Raul Randon). Com a autoridade de quem assessora 100 vinícolas, número que sobe para 250 quando contabiliza o trabalho feito por seus 10 assistentes, avaliou o vinho brasileiro – fez críticas e teceu poucos elogios – e até arriscou previsões de mercado.

        É atribuído a Rolland, 61 anos, o poder de transformar um vinho em sucesso. Um Midas, diriam os fãs da arte do enólogo francês, que se dá ao luxo de recusar consultorias. As viagens o obrigam a passar metade do ano longe de casa. Como no último dia 4, quando nasceram os netos gêmeos Arthur e Theo, alegria que apenas pode brindar em meio a lançamentos de produtos que levam sua assinatura. Mas Michel estava feliz com a evolução dos vinhos, uma de suas paixões. Sua invejável adega, iniciada há 30 anos, reúne mais de 15 mil rótulos, sem contar os que o colecionador compra para beber. A paixão por vinhos é dividida apenas com relógios. Rolland é exato ao afirmar que tem 28, mas faz questão de ressaltar que todos são de qualidade.

 

ZH – Há cinco anos, o senhor disse que o vinho brasileiro era inexpressivo e que o país precisava melhorar muito para alcançar destaque no mercado internacional, o que causou um mal-estar entre os vinicultores nacionais. O senhor continua com essa opinião?

 

Michel Rolland – Sinto muito por eles, mas continuo. Acredito que o Brasil tem condições de ter bons vinhos, mas não pode continuar elaborando vinhos de baixa qualidade.

 

ZH – Então, por que a imagem do vinho brasileiro, em sua opinião, continua a mesma?

 

Michel Rolland – Porque são necessários cerca de 10 anos para formar uma imagem de um vinho. Um exemplo disso é a Argentina, que levou cinco anos para conseguir ser visto como um país produtor de bons vinhos. O mesmo aconteceu com a Austrália, que conseguiu fama nos anos 90, mas estava trabalhando havia 20 anos por esse reconhecimento.

 

ZH – O senhor considera prêmios internacionais importantes?

 

Michel Rolland – Mal não fazem. Mas não são suficientes, até porque os que ganham medalhas estão concorrendo com as amostras que foram inscritas naquele prêmio, mas não com todos os vinhos do mercado. É preciso muito mais coisa para avaliar a qualidade de um vinho. É bem verdade que as medalhas sempre ajudam a divulgar o vinho.

 

ZH - O que o senhor acha dos vinhos de butique, vendidos quase como jóias?

 

Michel Rolland – Existem vários níveis de mercado. O mercado global importa milhões de garrafas. Mas há sempre um mercado restrito, com poucos consumidores, que buscam esses vinhos mais elaborados. É fácil produzir bons vinhos, o mais complicado é conseguir vender.

 

ZH – Em sua opinião, qual a melhor região produtora de vinhos brasileiros?

 

Michel Rolland – Considero o Vale dos Vinhedos como a de maior potencial. O Vale do São Francisco, no Nordeste, é mais um negócio. De lá, não se pode esperar vinhos espetaculares. Vacaria tem bons solo e clima. Lá, podem ser produzidos Chardonnay, Pinot Noir e Merlot, mas não Cabernet Sauvignon. O vinhedo de Raul Randon, que produz o RAR, é o mais bonito do Brasil hoje. Na região da campanha, os vinhedos são jovens. Touriga Nacional e as variedades portuguesas resultam em bons vinhos, de personalidade. Mas o Vale dos Vinhedos tem mais história e expressão, clima e solo são adequados. O Merlot do Vale foi muito bem trabalhado. Selecionamos uvas com todo o cuidado. Acredito que seja um dos melhores que elaboramos.

 

ZH – Qual o melhor tipo de vinho do mundo?

 

Michel Rolland – Não se impõem um tipo de vinho. É o gosto pessoal que vai fazer decidir. Mas o mais exitoso é o Malbec argentino. Só não sei até quando. Porque, por exemplo, a Austrália, que fez muito sucesso com o Shiraz, enfrenta problemas, principalmente porque os Estados Unidos trancaram o consumo desse vinho. Na África do Sul, o Cabernet Franc está crescendo, mas falta expressão.

 

ZH – E o sucesso do Cabernet Sauvignon, preferido pelo menos no Brasil?

 

Michel Rolland – O Cabernet Sauvignon é o mais famoso, o mais vendido em todo mundo. Porém, é consumido por gente que não está muito preocupada com qualidade. No Brasil, o Cabernet Sauvignon não é o de melhor qualidade. É o mais fácil de fazer, o mais resistente. É muito mais fácil fazer um vinho correto. Mas o Merlot tem mais potencial. Elaborar Merlot no Brasil, sim, tem futuro.

 

ZH – Existe uma nova região no mundo que seja promessa para o futuro?

 

Michel Rolland – A região promissora fica ao redor do Mar Negro. É a Bulgária, a Romênia, a Rússia. Lá, os solos são muito bons.

 

ZH – Como o senhor vê o Sesmarias, vinho da Fortaleza do Seival, em Candiota, lançado hoje?

 

Michel Rolland – Esse vinho vai ser o ícone do Seival. É a primeira experiência do Brasil de fermentação integral em barricas, giradas todos os dias. As uvas foram selecionadas, com uma produção de menos de 1kg por planta. De 10 vinhos varietais produzidos na propriedade, seis são colhidos para compor o corte do Sesmarias. A idéia é que a cada ano tanto os vinhos quanto as suas proporções sejam diferentes, para atingir o que houver de melhor. Esse vinho ainda não tem preço, mas ele surgiu a partir da idéia de Top 100, um vinho com preço próximo aos 100 dólares. Para falar de um bom vinho, é preciso falar de um que envelheça bem. Serão 4,4 mil garrafas, mas o vinho ainda deve ficar uns cinco meses em barricas. O recomendado é que seja tomado daqui a cinco anos ou mais. Ele deve durar uns 10 anos. Acredito que daqui a quatro ou cinco anos, esse Sesmarias será o melhor vinho do Brasil. 

 

FONTE: JORNAL ZERO HORA – JUL/2009

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